Natureza Humana

27/02/2007

Por que tudo que eu gosto de comer engorda?!

Imagine uma bandeja de brigadeiros, uma porção de batatas fritas, uma pizza com borda de catupiry ou uma picanha com aquela gordurinha suculenta. Aahhh, como dá água na boca! Agora pense em um belo prato de salada crua, um peixinho grelhado ou em uma maçã apetitosa. Venhamos e convenhamos, não tem a mesma graça...

Mas, por que gostamos tanto justamente das comidas que engordam ou nos fazem mal?

A questão é que tais comidas nos causam uma irresistível sensação de bem-estar! Pesquisas revelam que os açúcares e as gorduras, por sua composição química e por sua textura, ativam áreas cerebrais intimamente relacionadas ao prazer. Mas isso não explica tudo. Por que logo essas substâncias provocam tal prazer nos humanos? Seria ótimo se cenoura fosse tão gostosa para a gente como deve ser para os coelhinhos...

O prazer que essas substâncias nos proporcionam está relacionado ao fato de serem grandes fornecedores de energia, característica especialmente importante quando não se tem certeza da comida de amanhã. Durante muito tempo, nós humanos vivemos assim, a mercê da natureza para nos alimentarmos e somente há cerca de 10 mil anos, com o advento da agricultura e da domesticação de animais, as coisas mudaram. Por isso, foram nos milhares de anos de pré-história que a dieta alimentar dos humanos foi estabelecida, quando ainda éramos nômades e dependíamos da caça e da coleta.

Se hoje vamos ao supermercado e sem maiores esforços escolhemos o que levar das prateleiras (salvo, é claro, limitações financeiras), naquele tempo precisávamos, literalmente, correr atrás do nosso jantar. Só que isto não era nada fácil. A caça nem sempre era bem sucedida e o mais comum era capturar pequenos animais, afinal enfrentar um búfalo feroz, por exemplo, não era pra qualquer um. Comer doce, geralmente significava um fruto maduro, pois o mel, fonte preciosa de açúcar natural, quase sempre vinha acompanhado de algumas centenas de abelhas. Por incrível que pareça, era a coleta de frutas, raízes, cereais e verduras que sustentava a alimentação do grupo.

Parece coincidência, mas não é. A dieta recomendada pelos nutricionistas é muito semelhante a que tinham os nossos ancestrais: rica em fibras (frutas, legumes, verduras), proteínas (carne branca e, eventualmente, carne vermelha) e com pouco consumo de açúcares (doces) e gorduras (frituras, gorduras saturadas). Isso mostra o quanto o nosso corpo foi desenhado para esse tipo de alimentação.

Mas por que queremos comer mais e mais as guloseimas? Pense o seguinte: O que as pessoas fazem quando vão a uma festa de casamento com um bom buffet? Em geral, se esbaldam de comer! Afinal, nunca se sabe quando se poderá comer a vontade tanta comida gostosa. Esse era o pensamento que pairava sobre as mentes dos humanos no período pré-histórico. Diante de alimento com alta carga energética, o mais vantajoso era devorar sem culpas o banquete, já que não havia nenhuma garantia de comida no dia seguinte. Para que isso acontecesse precisávamos achar certas comidas irresistíveis. Nosso gosto por tudo isso vem daí.

O grande contraste é que antes o que era gostoso era raro, mas hoje está disponível em nossas geladeiras sempre que quisermos. E outra, os alimentos atuais são bem mais doces e gordurosos do que qualquer outro encontrado na natureza, afinal não vemos um pé de brigadeiro ou uma manada de coxinhas andando por aí...

Destas disparidades surgem as chamadas doenças da modernidade, como a obesidade, diabetes, hipertensão e outras. Saber que não é de hoje que somos apreciadores de açúcares e gorduras deve nos ajudar a entender a importância de nos controlarmos para não morrermos pela boca.

O consolo, é que todos esses quitutes só se tornam vilões da saúde se forem consumidos em excesso, ou seja, cometer um abusinho de vez em quando não faz mal a ninguém. Além do mais, depois a gente vai pra academia e tenta queimar tudo...

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Fonte: Nesse, R. M., Williams, G. C. (1997). Por que adoecemos. A nova ciência da medicina darwinista. Rio de Janeiro: Ed. Campus.

Herculano-Houzel, S. (2003). Sexo, drogas, rock’n’roll e chocolate: o cérebro e os prazeres da vida cotidiana. Rio de Janeiro: Vieira & Lent.

Escrito por Monique Leitão às 11h49
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10/05/2006

MÃE É MÃE! Por que elas fazem tudo por nós?

As mães são, sem dúvida, seres adoráveis! Dividem seu corpo conosco durante nove meses, passam noites em claro, acompanham nossos primeiros passos, nossa vida escolar, nossos sucessos e fracassos e, mesmo quando já estamos grandinhos, estão sempre ali, conciliando os carões e os carinhos.

Os pais que me perdoem, mas qualquer observador atento percebe que, de modo geral, são as mães que devotam mais cuidados diretos aos filhos. É claro que todo o amor que recebemos delas é merecidamente retribuído: desde o primitivo mamã , primeira palavra de muitos de nós, até o que somos capazes de comprar no Dia das Mães – uma das datas mais lucrativas do comércio, à frente, inclusive, do Dia dos Pais.

Uma interessante pesquisa provou que as mães também são mais sensíveis aos apelos infantis do que os pais. As antropólogas Joy Stallings e Carol Worthman e a psicóloga Alison Fleming e sua equipe pediram para que pais recentes ouvissem gravações de dois tipos de choros: o primeiro era de um recém-nascido que chorava de manhãzinha para ser alimentado e o segundo era um choro irregular de um bebê submetido a uma circuncisão.

Monitorando as reações e os níveis hormonais – testosterona, cortisol e prolactina – as pesquisadoras viram que na primeira situação as mães reagiram mais prontamente do que os pais; já na segunda, ambos se mobilizaram com a mesma intensidade. Isso nos mostra que mães e pais reagem da mesma forma diante de um pedido de socorro, como para proteger o bebê de uma forte ameaça, mas quando se trata de um “eu quero”, as mães são experts em perceber e responder às solicitações infantis.

Surge a questão: por que as mães são tão cuidadosas com seus filhos?

Podemos dizer que é o turbilhão de hormônios – progesterona, estrogênio, prolactina e oxitocina – que inunda o corpo da mãe, que a deixa mais sensível e propensa ao cuidado e atenção. Além disso, a própria presença do bebê, seus cheiros e características físicas deixam a mãe verdadeiramente derretida por ele. Estas respostas nos mostram as chamadas causas próximas , ou seja, explicam como o comportamento materno é desencadeado.

Há ainda outras explicações que complementam as anteriores: são as chamadas causas últimas ou finais, que vão nos dizer por que existe o cuidado materno, que funções ele apresenta e por que evoluiu.

Para entendermos isto é importante lembrar que o bebê humano nasce extremamente frágil e dependente, sendo incapaz de sobreviver sem cuidados durante toda a infância. Quem cuidará dele? Geralmente, a mãe é a mais empenhada neste cuidado, não só porque o bebê carrega metade dela mesma (50% de seus genes), mas por causa dos custos que ela arcou para tê-lo.

É que a mãe humana, como toda mamífera que se preze, destina investimentos inicias bem mais altos a seu filho do que o pai. Tudo começa por seu óvulo (muito maior e mais custoso do que os espermatozóides), passando pelos dispendiosos meses de gestação, os riscos do parto e o longo período de amamentação.

Diante desses custos, vemos que a mãe é quem mais tem a perder se seu filho não for bem cuidado, mas é lógico que mãe nenhuma faz tais cálculos. Algo mais forte e precioso faz a mulher se tornar mãe: o amor por seu filho, que é capaz de promover um mútuo apego que permanece por toda a vida.

Ao longo de milhares de anos esta história se repetiu. As mães que se dedicaram à criação de seus filhos aumentaram as chances deles alcançassem a fase adulta, contando, para isso, com a ajuda do pai e de outros parentes. Por isso, hoje as mães humanas de todo o mundo são tão parecidas no cuidado materno.

Ah! Por falar no pai, é importante esclarecer que ele é essencial na árdua tarefa de criar os filhos, por isso tudo o que uma mulher quer é ter um pai dedicado ao seu lado. Pena que nem sempre isso acontece, mas isso já é outra história...

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Fonte: Alcock, J. (2001). Animal Behavior: an evolutionary approach. Sunderland: Sinauer.

Hrdy, S. B. (2001). Mãe Natureza: Uma visão feminina da evolução. Maternidade, filhos e seleção natural. Rio de Janeiro: Campus.

Escrito por Monique Leitão às 14h10
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13/03/2006

Darwin na crista da onda



A revista Science, uma das mais renomadas revistas científicas do mundo, elegeu no final do ano passado os 10 fatos científicos que mais se destacaram em 2005. Que descoberta poderia estar no topo da lista? Algo a respeito da AIDS, do universo ou dos átomos? Tsc, tsc... O primeiro lugar foi para a Teoria da Evolução, que foi desenvolvida por Charles Darwin há quase 150 anos.

Ao explicar a diversidade de formas de vida na Terra, a Teoria da Evolução revolucionou a biologia. Até então prevalecia o criacionismo, que defende que todas as plantas e animais foram criados por Deus tal qual os conhecemos. Darwin propôs que os seres vivos evoluem, ou seja, transformam-se ao longo das gerações, na medida em que características que ajudam os organismos a sobreviver e reproduzir são favorecidas pela seleção natural.

Mas como pode uma teoria proposta há tanto tempo ser considerada destaque científico em pleno século XXI?! Para os editores da Science, foi em 2005 que diferentes pesquisas revelaram como a evolução realmente ocorre, comprovando sua validade científica.

Dentre as pesquisas do ano passado, a revista destaca a codificação do genoma do chimpanzé, que mostrou que seu DNA e o do humano diferem em apenas 4%. Outros estudos realizados em 2005 permitiram elucidações a respeito do surgimento de novas espécies e sobre como espécies próximas podem manter-se separadas, confirmando proposições teóricas de Darwin.

Mas a Science não foi a única que colocou Darwin em posição de destaque no ano de 2005. Em novembro, o Museu Americano de História Natural, em Nova York, estreou a maior exposição de todos os tempos sobre o naturalista britânico. A exposição, que apresenta vida e obra de Darwin, partirá mundo afora até 2009, quando serão comemorados os 200 anos de seu nascimento.

Se no mundo inteiro Darwin tem estado em alta, no Brasil não poderia ser diferente. Em 2005, o Programa Institutos do Milênio do CNPq aprovou cerca de 1 milhão de reais para um projeto de Psicologia Evolucionista – campo que estuda a mente e o comportamento humano com base no darwinismo. O projeto intitulado “O moderno e o ancestral” será coordenado pela professora Maria Emília Yamamoto do Departamento de Fisiologia da UFRN e, pelos próximos três anos, envolverá dez instituições nacionais em pesquisas sobre desenvolvimento infantil, comportamento alimentar, escolha de parceiro, cooperação, entre outros temas.

Ironicamente, 2005 também foi marcado por atuações contrárias ao ensino da evolução nas escolas. Nos Estados Unidos, os defensores da teoria do “design inteligente” lutaram para que suas idéias fossem ensinadas em sala de aula, mas autoridades norte-americanas têm barrado esta iniciativa. O “design inteligente” propõe que somente um criador poderia produzir os complexos organismos existentes, não sendo fruto do acaso da seleção natural como aponta a Teoria da Evolução. Para os evolucionistas, a teoria do “design inteligente” não possui bases científicas e está muito envolta por crenças religiosas.

No Brasil, o estado do Rio de Janeiro implementou, desde 2004, o ensino religioso confessional nas escolas públicas. A proposta de que o ensino das religiões tivesse um caráter histórico e sem diferenciação de credos foi vetada pela governadora Rosinha Matheus que, inclusive, já declarou: “Não acredito na evolução das espécies”. Grande parte da comunidade científica brasileira critica que o criacionismo esteja sendo ministrado nas escolas e teme que a validade da teoria da evolução esteja sendo questionada.

Se ainda hoje a teoria da evolução causa polêmica imagine um século e meio atrás! Foi justo por temer as críticas, que Darwin manteve sua teoria no anonimato por mais de 20 anos, até receber uma carta do jovem cientista Alfred Russel Wallace, que, sem saber, chegara às mesmas conclusões de Darwin! Em um acordo de cavalheiros, os dois publicaram juntos a teoria da seleção natural e, a pedido de Wallace, Darwin abandonou um extenso livro que escrevia e dedicou-se a um menor: A origem das espécies , que o consagrou como o grande fundador da teoria da evolução. A primeira edição da obra, publicada em 1859, esgotou-se no mesmo dia e hoje se encontra traduzida em mais de 30 línguas.

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Fonte: Culotta, E. & Elizabeth, E. (2005). Breakthrough of the year: Evolution in action. Science, 310 (5756), 1878–1879. DOI: 10.1126/science.310.5756.1878. Disponível em: http://www.sciencemag.org/sciext/btoy2005/

Darwin, C. (2004). A origem das espécies (1ª ed., J. Green, Trad.). São Paulo: Martin Claret. (Texto original publicado em 1859)

Lopes, R. J. (2005, novembro 17). Estudo usa evolução para pesquisar vida familiar no Brasil. Folha de São Paulo. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u13974.shtml

Tiraboschi, J., Manei, T. & Aquino, G. (2005, outubro). Religião X Ciência. A polêmica em sala de aula. Revista Galileu, 171, 34-37.

Zabarenko, D. (2005, dezembro 22). Science escolhe teoria da evolução como fato científico de 2005. Reuters. Disponível em http://about.reuters.com/brazil/
Escrito por moniqueleitao às 17h50
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Por que sentimos ciúme?



É normal sentir ciúme? Quem é mais ciumento, o homem ou a mulher? Até algum tempo atrás essas eram perguntas que não queriam calar. Foi o psicólogo americano David Buss que resolveu de uma vez por todas essas questões. Ele veio afirmar aquilo que todo mundo já sabia (ainda que não admitisse): todos nós sentimos ciúme quando gostamos de alguém e isso é absolutamente normal. E mais: não há um sexo mais ciumento do que outro, ambos sentem ciúme com a mesma intensidade, mas de formas diferentes.

Até hoje Buss é famoso por sua pesquisa que pediu para homens e mulheres responderem a uma pergunta intrigante: O que seria mais doloroso pra você? Descobrir que seu parceiro(a) teve uma relação sexual com alguém ou descobrir que ele(a) está apaixonado(a) por outra pessoa? Difícil, hein?! Pois é, mas era preciso escolher uma, e somente uma opção, ainda que ambas tirem qualquer um do sério!

Resultado? 67% dos homens se mordem por uma traição sexual e 66% das mulheres não suportariam uma traição amorosa. Os mesmos números foram encontrados entre mais de 2000 participantes de 37 países. Foi aí que se confirmou que, de modo geral, é o ciúme sexual que mais preocupa os homens e o ciúme emocional que mais atormenta as mulheres.

Como bem se sabe, os homens são bastante intolerantes à infidelidade, mesmo que seja só uma vezinha. Não adianta as meninas jurarem que foi apenas uma noite e que amam o namorado. Nada feito, meninas... Podem ter certeza que é muuuuito provável que ele vá borbulhar de raiva e que nunca mais queira te ver de novo! Já as meninas, vão se acabar de chorar se souberem que foram traídas e, por mais que as duas formas de traição doam muito, saber que seu amor está apaixonado por alguém dói mais do que qualquer outra coisa.

Lembre-se que estamos falando daquilo que acontece geralmente. Ninguém está aqui pra dizer que não existem mulheres que achem pior a traição sexual ou homens que achem a infidelidade emocional mais dolorosa (aaaaiii que fofo! Qual a mulher que não quer um homem desses?). É que essas são exceções e, de um modo geral, as coisas não são assim.

Tá bom, mas e aí? Por que somos assim? Somos assim porque homens e mulheres diferem quanto aos interesses e preocupações diante de um relacionamento. O que isso quer dizer? Na verdade, o ciúme acompanha a história da humanidade desde sempre. Para entendermos isso é preciso viajar até os primórdios do humano, quando éramos nômades e vivíamos em um ambiente bastante perigoso.

Naquela época cuidar de um filho era muito mais difícil e arriscado do que hoje, por isso era essencial contar com o pai na criação, proteção e subsistência da família. O que poderia ameaçar isso? É que se esse pai apaixonava-se por alguém, ele abandonava a família e passava a destinar seus recursos para outra (nesse sentido as coisas não mudaram muito de lá pra cá...), o que poderia ser sinônimo de morte dos filhos ou da própria mulher. A natureza arrumou um jeitinho para isso ser evitado: o ciúme emocional das mulheres, que faz delas desconfiadas e alertas ao menor sinal de desatenção ou desinteresse do companheiro, afinal isso pode resultar em desamparo.

E os homens? Imagine só o que é um homem descobrir que fez das tripas coração para criar filhos que não são seus! Em um tempo em que não havia teste de paternidade esse era um fato possível e extremamente desvantajoso para o pobre bom pai, que não teria seus genes passados adiante. O risco vai às alturas se for descoberta uma infidelidade sexual, mesmo que só uma. O ciúme sexual masculino está aí justamente para evitar esse enorme problema.

Se não é à toa que sentimos ciúmes, então fica claro por que ele é tão importante para o tempero do amor. A questão é que quando o ciúme se torna patológico, traz prejuízos e sofrimento para o ciumento e para aqueles com quem ele convive. Sábias são as nossas mães que já diziam: “tudo demais é veneno”.

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Fonte: Buss, D. M. (2000) A paixão perigosa. Por que o ciúme é tão necessário quanto o amor e o sexo. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva.


Escrito por moniqueleitao às 17h03
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